Reflexão sobre a redução da idade penal

Ariel de Castro Alves

Reflexão sobre a redução da idade penal

Nos últimos anos, temos visto com freqüência, principalmente nos períodos eleitorais, campanhas e projetos de lei sobre a redução da idade penal e o aumento do tempo de internação para adolescentes infratores. Essas campanhas e projetos são patrocinados por setores políticos que demonstram notória atuação reacionária e oportunista. Também participam familiares de vítimas de crimes praticados por adolescentes - que movidas, justificadamente, por forte emoção e dor, defendem a redução da inimputabilidade penal ou até a morte dos jovens autores de crimes.

Porém os signatários da campanha desconhecem ou preferem não conhecer as verdadeiras causas da violência no Brasil e as distorções em torno da responsabilização penal dos adolescentes. A medida refletiria, necessariamente, no aumento da criminalidade - e não o contrário, como pugnam seus defensores. Vejamos sinteticamente algumas das principais questões que envolvem o polêmico assunto:

- Um recente levantamento da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo mostrou que os adolescentes são responsáveis por apenas 1% dos homicídios praticados no estado e por menos de 4% do total de crimes;

- Pelo contrário, os jovens são as principais vítimas da violência no Brasil. Conforme uma pesquisa realizada em 1999 pelo Movimento Nacional de Direitos Humanos, para cada adolescente que comete um crime, outros quatro são vítimas de crimes praticados por adultos contra eles. Um recente relatório da Unesco demonstra que os jovens são as principais vítimas da falta de oportunidades, do desemprego, da exclusão social e, principalmente, da violência. Quase metade de todos os homicídios que ocorrem no país é praticada contra jovens com idades entre 15 e 24 anos. Esse é o mesmo perfil da maioria das vítimas da violência policial e dos grupos de extermínio em São Paulo: além de jovens, são negros e pobres;

- Os jovens com idades entre 18 e 25 anos representam 70% da população prisional brasileira, evidenciando que o Código Penal e suas punições não inibem os adultos jovens da pratica de crimes. Portanto também não serviria para intimidar os adolescentes entre 16 e 18 anos;

- A questão da inimputabilidade é considerada “cláusula pétrea”, se tratando de direito e garantia fundamental das crianças e dos adolescentes, sendo, portanto, inconstitucional qualquer emenda visando à modificação, conforme pode-se verificar nos artigos 5o, 228 e 60, parágrafo 4o, inciso IV da Constituição Federal;

- O Brasil ratificou a Convenção da ONU (Organização das Nações Unidas) de 1989, que define como crianças e adolescentes todas as pessoas com menos de 18 anos de idade, que devem receber tratamento especial e totalmente diferenciado dos adultos;

- As pesquisas que divulgam a defesa da redução da idade penal pela maioria da população partem de uma indagação equivocada e que induz a erro os entrevistados: “Você acha que os jovens com menos de 18 anos devem ser responsabilizados?”, partindo do pressuposto de que eles ficariam impunes. Na realidade, eles são devidamente responsabilizados, mas não pela lei penal e sim pela legislação especial (Lei 8. 069/90 - Estatuto da Criança e do Adolescente), que prevê no artigo 112 as medidas socioeducativas, que não vislumbram só a punição, mas principalmente a reeducação e socialização dos adolescentes infratores;

- Os crimes graves atribuídos a adolescentes no Brasil não ultrapassam 10% do total de infrações. A grande maioria (mais de 70%) dos atos infracionais, são contra o patrimônio, demonstrando que os casos de infratores considerados de alta periculosidade e autores de homicídios são isolados e o ECA já prevê tratamento específico para eles;

- A reincidência criminal no sistema penitenciário brasileiro é de 60%, já no sistema de internação da Febem (Fundação Estadual do Bem Estar do Menor) de São Paulo, apesar da crise permanente da instituição descumpridora do ECA, a reincidência infracional é de 16%, segundo fontes oficiais. Isso demonstra que os adolescentes, por esforço próprio e apoio de entidades, estão mais propícios a serem recuperados. Nos Estados que cumprem o ECA, os índices são ainda menores, entre 1 e 5%;

- Alguns países que reduziram a idade penal, como a Espanha e Alemanha, verificaram um aumento da criminalidade entre os adolescentes e acabaram voltando a estabelecer a idade penal em 18 anos (como mais de 70% dos Países do Mundo) e um tratamento especial, com medidas sócio-educativas, para os jovens de 18 a 21 anos.

Tendo em vista as informações acima, será que vale a pena investir na formação de criminosos cada vez mais precoces ou cumprir o que dispõe o Estatuto da Criança e do Adolescente, garantindo a inclusão social e os direitos da infância e juventude brasileiras? Vale uma reflexão!

Ariel de Castro Alves é advogado, conselheiro nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos, vice-presidente do Projeto Meninos e Meninas de Rua, diretor do Sindicato dos Advogados de São Paulo e colaborador da Justiça Global.
Texto extraído de www.rets.org.br



Escrito por Sydnei Melo às 19h59
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Pra não faltar carne no pastel...

Pelo parecido, até parece uma conversa de feira. Mas não é. Porém, não se assustem, não é algo ruim. É um pouco de graça para tanta desgraça.

Acabei de sair de mais um grupo de discussão sobre universidade que aconteceu no oitavo Congresso dos Estudantes da Unicamp, e um dos integrantes, em uma afirmação interessante, disse que precisamos ter bastante cuidado com as análises que fazemos, de forma sábia, ou então "a gente vai achar que por quê tá faltando carne no pastel o cara que fez é neoliberal". Pelo menos foi isso que entendi...

Uma frase histórica não podia seguir a estrada do esquecimento, e imagino que uma breve comparação possa ser construída. Para bem dizer, acho importante salientar o que anda ocorrendo com nossas universidades, que há tempos têm se transformado numa verdadeira feira-livre do capitalismo.

O primeiro semestre foi históricamente exemplar do poder que a juventude pode exercer. Nas estaduais paulistas, tivemos um árduo processo político com ocupações, atos massivos e grande repercussão na opinião pública por conta dos decretos impostos por José Serra, que se visto com boas análises, mesmo que não muito profundas, evidenciavam o problema que estava sendo colocado: extinção da autonomia universitária e maior espaço para o financiamento privado, desresponsabilizando o Estado dos cuidados que possui constitucionamente em relação à educação superior. De um pastel que já anda meio murcho e sem gosto, o chef veio tirar os últimos restos de carne: queria que experimentássemos um pastel de vento. Vazio, assim como seria vazia a nova produção de conhecimento instalada à partir dos decretos, ou melhor, a não produção de conhecimento, a verdadeira entrega da pesquisa científica universitária para as mãos de alguns cozinheiros que queiram as receitas da forma como quiserem, sem nunca sanar a fome do povo, cada vez mais esquecido nesta cozinha maledeta.

Só que a maioria dos degustadores não queriam meros pasteizinhos de pura massa. E por conta, resolveram botar carne no pastel, à contra-gosto do chef. Afinal, um bom pastel se faz de muito recheio, com uma carne saborosa e, principalmente, para matar a fome de todo mundo. Por conta, houve um grande processo de greve nas três universidades estaduais paulistas, que questionaram e construiram um grande movimento em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade, reivindicando a queda dos decretos de Serra e também da recém criada Secretaria de Ensino Superior. Isto se deu através de atos e ocupações, em sua grande maioria responsáveis, pacíficas e com apoio da comunidade acadêmica.

O movimento, após a promulgação do decreto declaratório (um pouco de tempero pra disfarçar), acabou diminuindo, inclusive deparando-se com determinados obstáculos a algumas medidas reivindicadas. Acabou por cessar minimamente.

Mas, como os chefs acham que a fome pode voltar, resolveram partir para uma nova estratégia: punir "exemplarmente" alguns degustadores do movimento. Baseados em uma constituição que não foi modificada desde o período da ditadura (mesmo com uma nova constituição proclamada em 1988), realizaram um processo sumário de investigação e de depoimentos pelas acusações de "baderna", "algazarra", e outras bizarrices que não possuem explicação lógica (e sim ideológica). Cinco estudantes, neste momento passam por processo de indiciamento. Cinco estudantes dentre centenas que na Unicamp ajudaram a construir um movimento conjunto de defesa do ensino superior contra medidas precarizantes que advêm hoje tanto do governo estadual quanto do governo federal. Cinco apreciadores de um bom pastel de carne, suculento, que estão sendo punidos por participarem de um grupo maior que resolveu se colocar na luta por um pastel de qualidade (de preferência, com queijo e azeitona junto).

Para agora, é extremamente necessário construirmos com o conjunto dos estudantes um movimento que barre qualquer tentativa de punição àqueles que lutam pela universalização da educação de forma qualitativa e socialmente referenciada. Não podemos permitir que o autoritarismo ainda [absurdamente] presente nas instituições públicas venham destruir a militância por um novo modelo de educação, e também por um novo modelo de sociedade.

Enfim, não podemos deixar o pastel cada vez mais precário. Sem um bom recheio, não é pastel. É uma fonte barata e tosca de lucro.

É hora de mostrar que temos fome. Muita fome.

Bom apetite...



Escrito por Sydnei Melo às 21h00
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O giro do tempo

Nossos corpos são louváveis.

Aquilo que faz de nós estes seres pluricelulares tão sofisticados deve ser tremendamente maravilhoso e especial. Como é possível que possamos ter uma estrutura capaz de suportar tantos revezes? De conseguir agir em meio as adversidades e mudanças que praticamente não possuem nenhuma explicação imediata e racional?

Nem mesmo os meteorologistas fazem idéia.

Por que eu tenho certeza que nem mesmo a moça do tempo era capaz de prever tanta mudança.

Sim, sim... Eram 40ºC no domingo. Eram talvez 35ºC ontem. Foi talvez 22ºC hoje. E em nossas salas, em nossos trabalhos, em nosso caminhar pelas gramas e ruas de nossa vida, nos perguntamos: De onde veio esse frio?!

Estávamos prestes a entrar em estado de emergência no interior de São Paulo por conta da baixíssima humidade que nos afligia, coisa de 5% de umidade para menos. E de repente, não veio a chuva... mas um frio!

Ok, você blogueiro(a) que está no sul, ou em alguma cidadezinha fria, não me amole tanto. O giro do tempo pode causar as consequência e reações mais diversas de acordo com cada contexto histórico-social (e geográfico, não nos esqueçamos).

E até que se busque explicações (ou simplesmente fiquemos à deriva da vontade louca do tempo), convêm o uso das jaquetas...

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Um detalhe posterior: é primavera! Difícil entender...

Não fosse a Carol e eu não lembraria.



Escrito por Sydnei Melo às 16h55
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Breve palavra sobre a crítica da fé


Dedo de Deus, RJ

Ah!

Não me venham com esta história de mundo sem fé!

É a mania da "ciência apostólica" de atribuir os males do mundo à fé. De dizerem, "viu? Se não tivesse isso não ia ter inquisição, terrorismo, talebã" e blá, blá, blá...

Um primeiro problema dos "ilustrados" é a sua tendência à afirmações anacrônicas e desrespeitosas frente as mudanças dos fenômenos religiosos ao longo da história. A Igreja que inquiriu, hoje fez a opção pelos pobres. A luta islâmica que se dava pela conquista de impérios, hoje se dá para resistência ao imperialismo do capital e seu racionalismo econômico. Entre tantos fatos...

Um segundo problema dos "ilustrados" é não imaginarem a possibilidade de existir algo que esteja além de sua própria limitação material. Em uma arrogância de construir sua própria afirmação de espécie, jogam às valas toda a não-explicação de que são portadores. Entrosam uma religiosidade científica desprezando a possibilidade da transcedência. 

Precisavam ser mais humildes frente o universo que os cerca. E do qual ninguém sabe nada além do que os limita.

As leis da ciência, como as conhecemos no presente, contêm muitos números fundamentais, como o valor da carga elétrica do elétron e a proporção entre as massas do próton e do elétron... O fato marcante é que os valores destes números parecem ter sido finamente ajustados para que o desenvolvimento da vida fosse possível.
Stephen Hawking

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Bom fim de semana a todos.



Escrito por Sydnei Melo às 10h15
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Novas perseguições políticas

Todos devem se lembrar que durante o primeiro semestre tivemos um fortíssimos embate estudantil frente ao governo estadual de São Paulo, cujo representante é José Serra, por conta de seus decretos despóticos que feriram a autonomia universitária das universidades estaduais paulistas. Neste sentido, várias formas de manifestação aconteceram, como atos, protestos em ruas e campus, e as ocupações de prédios administrativos (sendo o exemplo mais peculiar o da Reitoria da USP, que ficou ocupada por estudantes mais de 50 dias, ato este que contribuiu para significativas conquistas na USP).

Na Unicamp não foi diferente, e no final do semestre tivemos a ocupação da Diretoria Acadêmica - a DAC - com o intuito de também conseguir melhorias e conquistas para a moradia estudantil, a representação discente, um posicionamento contrário das autoridades da Unicamp aos decretos e o impedimento de punições.

Apesar de não ter conquistado os frutos almejados, esta ocupação encerrou-se em conjunto com todo o processo que se construiu na greve das estaduais, e que foi um exercício político de extrema importância para futuras lutas que o movimento estudantil tenha que travar.

Porém, o capítulo que parecia terminado volta à tona.

Sindicâncias foram abertas pela reitoria da Unicamp para apurar os acontecimentos da ocupação da DAC, principalmente no que diz respeito a possíveis danos ao patrimônio público. No final, não foi constatado nenhum dano ao patrimônio público, o que exemplifica a organização que o movimento estudantil tinha.

Mesmo assim, a reitoria abriu novo processo de sindicância, e antes mesmo que houvesse a formulação de documentos sobre o novo processo, nove estudantes foram chamados para depor. Os novos processo seguem com acusações de "pertubação da ordem", "baderna", entre outros termos que eram muito comuns para se justificar a repressão ao movimento estudantil pelo militares nas décadas de 1960/70. Estes processos estão sendo construídos através da utilização de imagens (como fotos) para buscar responsáveis pelo ato político. Para se ter uma idéia maior da bizarrice, estes mesmos estudantes chamados para depor já estão classificados como acusados por responsabilidades. Além disso, foram estudantes claramente chamados à deriva, sem nenhuma apuração dos "possíveis responsáveis" de um movimento político construido de forma totalmente coletiva. Mais ainda, os estudantes que foram chamados no primeiro dia para depor não tiveram permissão para entrarem com seu advogado, fato que fere também a constituição brasileira no que diz respeito à defesa de um acusado. É importante salientar que o estatuto da Unicamp ainda responde em vários aspectos às normas estabelecidas no período da ditadura militar, entrando em contradição com os termos constitucionais de 1988.

Mais do que uma afronta a qualquer perspectiva jurídica do momento histórico, o processo que se constrói neste momento é de evidente perseguição política. Visto que não houve danos ao patrimônio e que a manifestação política era legítima, no sentido de fazer uma defesa da educação pública contra decretos visivelmente inconstitucionais e contra qualquer política de mercantilização da educação, a possibilidade de punições neste momento e a convocação destes depoentes para falar dentro de condições extremamente arbitrárias só exemplifica o processo de criminalização dos movimentos sociais e o quanto as burocracias ligados ao governo estão dispostas a impedir qualquer manifestação social, seja permitindo que a polícia invada a socos, ponta-pés e cacetetes um espaço político estudantil (como ocorreu no Largo São Franciso e na Fundação Santo André, para pegar casos mais recentes), seja realizando um processo de julgamento e intimidação da organização estudantil como ocorre atualmente na Unicamp.

É necessário somar forças contra qualquer ato arbitrário que vise interromper a luta por uma educação pública, gratuita e de qualidade para todos.



Escrito por Sydnei Melo às 10h42
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"Lavar roupa todo dia... que agonia"

Ok,ok, não é todo dia não. Pra falar a verdade é só de fim de semana. De Sábado ou de domingo. De manhã ou à tarde.

E com o clima seco, conclui que se este tempo ocorrer em um sábado ou em um domingo, sempre, será ótimo. As roupas secam muito mais rápido.

Meia hora pras camisetas de malha fria e pronto. Meia hora pras bermudas de poliester, e fim. Só ficam as meias com cheiro de cândida penduradas no varal mais tempo. Por sinal, meias que gostam de se sujar. Não acho que piso tanto em lugares empoeirados a ponto dessas meias terem tantas manchas. E juro que não vejo explicação alguma para que isto ocorra com tanta frequência. Até meus tênis estão bem mais limpos do que quando eu era criança.

Relaxa, que chulé, eu não tenho não.

Nessas horas fico lembrando daquela máquina capacidade 7Kg, mini a ultra lavagem, com centifugador (e é capaz que até passe a roupa) que compraram pra minha mãe lááááá em Aracaju. Que beleza...

Meu ideal: uma Brastemp.

Mas enquanto isso tenho de lidar com as condições objetivas que cercam a minha realidade de limpeza: tanquinho Newmaq plastic, função liga/desliga com sistema sifão de retirada de água. Sistema manual, leve você o sifão até o ralo. A centrifugação (é, esse privilégio eu tenho) é numa velha Enxuta. Não lavo direto nela por que de tanto que ela já passou pelo concerto é capaz que ela coma minhas roupas só por vingança.

Para completar, baldes, amaciante e sabão em pó. E o que eu uso é bom por que não faz muita espuma, o enxágue é mais fácil.

Mas no final das contas, aprendo muita coisa. Pelo menos minhas roupas brancas não saem mais coloridas como antes. E principalmente: aprendi a usar roupas de malha fria e poliéster com frequência. Isso diminui o volume de roupas para passar à ferro.

Já não fico mais tão triste em pensar "Cara, por que sujei tanta roupa essa semana"... Se é pra amadurecer, se sujar faz bem.



Escrito por Sydnei Melo às 16h36
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Jack Soul Brasileiro
E que som do pandeiro
É certeiro e tem direção
Já que subi nesse ringue
E o país do swing
É o país da contradição...
Lenine - Jack Soul Brasileiro

De samba e de distância, todo o Brasil tem um pouco.

De futebol e de amnésia, todo o pouco tem um Brazil.



Escrito por Sydnei Melo às 21h51
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Poxa vida... Coitado do Adorno.

Foram dois de três que se recusaram a discutir o texto anterior por causa do cara. Fiquei até com dó dele. Olha só a cara de triste...

Pois bem, fica então pra mim a responsabilidade de lê-lo. E de entregar amanhã o trabalho de sociologia contemporânea.

Ah, e pra Stella também.

 

Se alguém quiser se aventurar, só continuar a leitura abaixo.



Escrito por Sydnei Melo às 21h01
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Contradições e condições objetivas

De qualquer modo, a ideologia dominante hoje em dia define que, quanto mais as pessoas estiverem submetidas a contextos objetivos em relação aos quais são impotentes, ou acreditam ser impotentes, tanto mais elas tornarão subjetiva esta impotência. Conforme o ditado de que tudo depende unicamente das pessoas, atribuem às pessoas tudo o que depende das condições objetivas, de tal modo que as condições existentes permanecem intocadas. Na linguagem da filosofia, poderíamos dizer que na estranheza do povo em relação à democracia se reflete a alienação da sociedade em relação a si mesma.
T. Adorno, em O que significa elaborar o passado

Este trecho está presente no texto proferido em uma palestra para a colaboração cristã-judaica, no ano de 1959. Adorno, um dos mais conhecidos representantes da Escola de Frankfurt, refere-se neste texto, bem como em muitos de seus trabalhos ao longo de algumas décadas do século XX, a quebra da linearidade memorial da história alemã, que a seu tempo era recém saída do período nazista, e a ênfase à questão educacional, pautando a necessidade de reconhecimento das condições objetivas em que se estruturavam o progresso ideológico da sociedade burguesa para que essa geração fosse capaz de reelaborar a memória alemã, no sentido de dissolver as estruturas que continuavam a manter elementos de uma personalidade autoritária a qual foram conduzidas toda uma nação durante trágicos anos de holocausto.

Tal frase me chamou a atenção, e considero [talvez] possível pensar um pouco sobre nossa própria realidade partindo deste âmbito.

Pensar que a idéia de soberania popular é necessária para a promoção de uma nova forma de vida societária pode ser um primeiro passo para refletirmos o que afinal impede o exercício desta soberania. Não podemos negar que vivemos com certa liberdade para expressão de opiniões, quaisquer que sejam. Diferente de períodos autoritários que há não pouco tempo eram latentes em nosso país - a expressão clara do exercício de interesses dominantes da forma mais brutal possível - usufruímos de relativa tranquilidade e permissão para o exercício crítico das idéias, seja para a afirmação ou para o questionamento e possível [e radical] transformação do status quo. Porém, afinal, o que impede na atualidade a constituição de um referencial político massivo e popular que vise uma maior atuação política no [ainda incipiente] sistema democrático em que nos inserimos?

Por um lado, temos a construção das críticas conservadoras, que ao vociferarem suas palavras aos movimentos sociais e aos grupos políticos progressitas reafirmam intrínsecamente a exclusão dos atores políticos (ou seja, o povo, as classes não abastadas de nossa sociedade), a atuação política dos letrados e diplomados, e a manutenção dos modelos políticos e econômicos de relações capitais/mercadológicas, dado estruturas sólidas de mercado, de finanças e de competição que, se questionadas ou abaladas, podem gerar crises de proporções temerosas.

Por outro, a atuação que tenta, tanto em perspectivas pedagógicas quanto pela compreensão da própria realidade concreta das desigualdades, novas formas de democratização e acesso à decisão política por parte dos setores populares, sejam elas pela tentativa de acirrar debates institucionais, seja (e parece ser a via mais real) por um fortalecimento da perspectiva de luta extrainstitucional, da criação do fato político e do exercício de disputa frente ao próprio Estado/instituição estabelecida.

O conflito em torno do ator político se estende às análises da atuação da ideologia dominante sobre a sociedade brasileira. Se por um lado temos um estímulo à não participação política da população (visto uma realidade amplamente negativa, apresentada pela mídia e opinião pública, da atuação dos representantes políticos no Estado, casos de corrupção e disputas de verbas e projetos políticos), do outro temos a incidência das críticas à política sobre a própria população (desde a não utilização correta dos intrumentos democráticos [e burocráticos] até definições vulgarizadas e conformistas - "o povo ter o governo que merece").

Em final, temos a utilização de elementos ideológicos que estimulam o conformismo, o esquecimento, a quebra da memória, e que para anularem o fruto das contradições estruturais da sociedade e da política na qual se inserem são obrigados a achar e apontar responsáveis, por sinal os setores mais excluídos pela predominância da estrutura burguesa brasileira de vida. E tudo isto guardando por trás de si (sem destacá-las) as condições objetivas nas quais estas pessoas estão inseridas, e que precisam ser reconhecidas para que transformações estruturais de atuação na sociedade sejam realmente efetivas.

Confesso que tenho dificuldade para aceitar pura e simplesmente que as pessoas estão iludidas, e que não saibam minimamente exercer alguma forma de opinião. Mas não dá para excluir uma análise tão preciosa como a que Adorno realiza sobre a realidade alemã, e que com plena certeza pode exercer notável apoio à análise da atuação política da população na democracia brasileira.

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É Stella... o texto do Adorno dá o que falar. É muito bom mesmo.



Escrito por Sydnei Melo às 12h41
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Sobre os anonimatos e as evidências contrárias do mundo

São Paulo é terra de gente. De muita gente. De gente em todos os lugares, becos, ruas, travessas, pontes.

Sim. São Paulo tem muita gente.

É com essas impressões que neste sábado, enquanto conversava com meu pai, o ouvia falar sobre uma das caracaterísticas que ele mais admirava nesta cidade: o anonimato. Diferente de cidades menores como a que cresci (e olha que Ribeirão Preto há muito tempo não pode ser considerada uma cidade pequena), em um lugar como a capital paulista somos um pequeniníssimo grão em meio a um imenso mar de seres humanos, homens, mulheres, trabalhadores, tribos, uma infinidade de identidades.

Em princípio, achávamos que podíamos andar por uma cidade como esta sem a mínima preocupação com a fama, com o que os outros pensam, até mesmo com a possibilidade de encontrarmos pessoas conhecidas. Da Sé à Luz. do Teatro Municipal à Vergueiro.

Porém, alguns fatos nos dariam a necessidade de repensar este elemento.

Primeiramente, por que, apesar desta discussão, meu pai estava bastante surpreso com a presença maciça de jovens góticos, darks, roqueiros, etc, principalmente próximos da região entre a Av. São joão e o Viaduto do Chá, em meio a grandes galerias de lojas. Até aí, uma análise nem tão surpreendente. Mesmo em uma cidade como São Paulo há espaço mais privilegiados para determinadas construções identitárias, onde melhor se produzem específicas relações sociais, simbólicas e práticas.

Após, os encontros são mais surpreendentes. Primeiro, e sem querer, encontro a Cuca, estudante de filosofia e amiga de lutas e militâncias, que no exato momento estava ajudando na campanha do plebiscito popular sobre a reestatização da Cia. Vale do Rio Doce. O achado se deu em frente ao Teatro Municipal de São Paulo.

Algumas horas depois, quando chegávamos ao Centro Cultural de São Paulo, nos deparamos com um casal, para quem pedimos informações sobre o local. Fomos descobrir que eles eram estudantes, vindos de Ribeirão Preto. Constatar as coincidências foi algo inevitável.

Com isto, sou levado a pensar que não apensas existem regiões privilegiadas para determinadas identidades, mas também espaços que se constituem como verdeiros centros atrativos, gravitacionais, de determinados grupos de pessoas. Por mais que consideremos estar em uma cidade assustadoramente gigantesca como São Paulo, não é dos eventos mais incomuns o encontro de pessoas minimamente conhecidas ou com alguma coincidência de origem, de característica, de perspectiva, mas que não necessariamente perpassam a questão tribal.

Se o mundo é pequeno como dizem, então podemos ter um pouquinho mais de cuidado com a aplicação de uma palavra tão peculiar como "anonimato".

Mas não que o mundo seja pequeno. Porém, trata-se do o "mundo" que construímos em nossas próprias relações e vontades, nossos próprios símbolos. Para esta discussão, é necessário repensar o próprio conceito de "mundo".



Escrito por Sydnei Melo às 22h34
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